Monday, October 31, 2005

 

Divers get cultural signposts

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Aftenposten
By Cato Guhnfeldt
October 27, 2005


A cultural landmark sign is ready for placement under the waves.
PHOTO: PÅL NYMOEN / NORSK SJØFARTSMUSEUM


Norway's Directorate for Cultural Heritage has begun a unique program of setting up signs to highlight historical landmarks - underwater.

About 30 shipwrecks in southern Norway will get the familiar preservation sign from the directorate, to help divers appreciate - and respect - some of the country's less obvious attractions.

On Thursday the first sign, bearing the familiar pretzel-shaped landmark logo, will go up near a shipwreck in Vest-Agder County in southern Norway. The signs are built of acid-resistant steel and titanium to resist saltwater and other sea problems.

Signs will be placed at depths of 10-30 meters (33-98 feet), and will point out wrecks and cargo that are particularly vulnerable to plundering.

"We are in principle very restrictive about revealing the position of the wrecks that are now getting signs, in order to avoid attracting unauthorized divers. But if they find such wrecks, they will now get a clear message to leave the preserved site alone," said maritime archeologist Pål Nymoen from the Norwegian Maritime Museum.


The signs will be placed in order to discourage
vandalism and plundering.
PHOTO: Norsk Sjøfartsmuseum.


Per Vangsøy, manager of the Norwegian Diver Association, said the project sounded exciting.

"We greatly support the protection of our undersea cultural heritage. But people must be allowed to enjoy the sight of a shipwreck. So we are opposed to diving bans in certain areas. We divers are an observer resource, so it is important that the signing takes place in cooperation with we who travel underwater," Vangsøy said.

Authorities are hoping for cooperation with local divers. They are also asked to help monitor the state of the signs, which are mounted with a gauge at the bottom to measure the amount of sedimentation or erosion.

The current signing project is considered a type of forerunner.

"Eventually we hope to achieve national coverage of our most important shipwrecks. Now at the first stage we will gather experience and feedback from divers," Nymoen said.


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Os poveiros no mar do Brasil

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Do Fundo do Mar
By Elísio Gomes Filho
October 31, 2005

O ex-voto.

Os poveiros no mar do Brasil - O pescador Agostinho André e a origem do ex-voto da Igreja Nossa Senhora dos Remédios

Dedico, o presente artigo a memória do etnólogo António dos Santos Graça, que fundou e dirigiu até à sua morte, o Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim. Foi um sensível e idealista personagem em quem pude me espelhar, para realizar meu trabalho em prol do resgate da história dos poveiros, que dedicaram suas vidas em trabalhar no mar do Brasil.


Praia do Anjos: Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, Arraial do Cabo, poveiros

Os moradores cabistas eram crentes sinceros: marca da herança da gente lusa. Os trabalhadores do mar de Arraial do Cabo, eram férteis em promessas aos santos, pois diante das aflições inerentes no mar ou por causa das doenças, fazia-se uma promessa. Exemplo dessa dedicação e da religiosidade dos pescadores cabistas encontra-se na construção em meados do século XVIII, em pedra e cal, da capela de Nossa Senhora dos Remédios na Praia dos Anjos pelo devoto Antônio Luiz Pereira e outros pescadores. Cabe dizer que a Praia dos Anjos (a qual ainda desconhecemos a origem de seu topônimo), foi um dos locais da região do internacionalmente conhecido cabo chamado de Frio (assim chamado pelos portugueses desde 1503), onde os poveiros costumavam ancorar suas lanchas, tendo alguns objetivos, entre eles: o de se abastecerem de água, no chamado poço do Sobral. E por serem culturalmente tão diferenciados de outros freqüentadores da praia cabista, esses homens do mar de Portugal, atraíam a curiosidade alheia, ou seja, tinham sobre si, a atenção de todos os moradores do pequeno arraial de pescadores do Cabo. E com o tempo, alguns deles acabaram se misturando com o povo cabista e passariam a transmitir seus singulares valores e sua laboriosa tradição para que os brasileiros viessem a encarar o perigoso trabalho nas zonas distantes da costa.

Cabe dizer que a devoção a Nossa Senhora dos Remédios foi introduzida em Portugal por religiosos franceses da Ordem Hospitalar da Santíssima Trindade, que estivera em Lisboa no início do século XII. A finalidade desta Ordem era a redenção dos cativos no Oriente e sua padroeira era as referida Nossa Senhora dos Remédios. Esta confraria se espalhou pela Europa, especialmente na Península Ibérica. Os seguidores da Santíssima Trindade trouxeram para o Brasil a mesma devoção, erguendo várias capelas em sua honra. No entanto, os santuários mais conhecidos se encontram em Parati, São Paulo e na ilha de Fernando de Noronha.

Era arreigadíssima a fé dos moradores da Praia dos Anjos pela sua padroeira, a qual em procissões acompanhadas de crianças vestidas de anjinhos, faziam desfilar a imagem pelas ruas. No século XX, se a pescaria no ano fosse excelente, mandava-se vir de Macaé, a banda de música Lira dos Conspiradores, se a mesma não viesse a ser tão boa, contratava-se a banda de Santa Helena de Cabo Frio e se aquela fosse ruim, chamava pelo menos os músicos locais. E era também a abundância da pesca que determinava a pompa da festividade, podendo-se entre outros, comprar ou não, fogos de artifício mais bonitos.

Igreja N.ª Sr.ª dos Remédios.

O mar sagrado roubou o meu amado: amargo destino

O ex-voto que fora oferecido à patrona da singela igreja da Praia dos Anjos vem retratar um fato ocorrido na noite de 6 de fevereiro de 1924: o acidente que envolveu um barco de pesca de nome “Cabo Frio” e o famoso transatlântico italiano “Principessa Mafalda”.

De acordo com o que colhi através da tradição oral, o fato ocorreu durante a noite e então passo a formular a seguinte e intrigante pergunta: como os tripulantes daquele barco teriam identificado em plena escuridão e em condições tão impróprias, que aquele transatlântico teria sido realmente o Principessa Mafalda ?

Mas seja como for, podemos observar claramente através da pintura daquele ex-voto de origem marítima, que o barco “Cabo Frio” e que por pouco não foi esmagado pelo casco do transatlântico, era de origem portuguesa, isto é, era uma embarcação oriunda da antiga comunidade piscatória da angra de Varzim – e que na ocasião estava sendo mestrado por Agostinho André – o qual segundo a tradição oral, era um poveiro – e que erradicado em Arraial do Cabo, veio se casar com uma nativa da Praia dos Anjos. A tela da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios ilustra a graça alcançada por cinco pescadores que foram lançados borda fora: Agostinho André, Antônio Martins, João Vicente, David Mendonça e Francisco Lopes.

Consta que a embarcação foi comprada e trazida de Portugal, por um morador de Arraial do Cabo, a pedido do próprio Agostinho André, para que ela viesse a ser usada nas pescarias, bem longe da costa de Arraial do Cabo, daí estaria a embarcação propensa a cruzar as rotas dos navios a vapor, sujeita a ser colhida e destruída pelos cascos de ferros. A embarcação da Póvoa de Varzim, originalíssima – a qual era de um só tipo, mas com classificações diferentes, devido ao tamanho que tinham, ficaria então sobre as alvas areias da Praia dos Anjos, lado a lado como as toscas canoas cabistas, destoando-se das mesmas.

Desconhecemos quem foi o autor da pintura que evocou em tintas, o perigo que passaram aqueles cinco homens, sendo que de acordo com a tradição oral, somente Agostinho André era poveiro e os demais, eram nativos do arraial dos pescadores do Cabo.

Ora, por onde os pescadores da Póvoa de Varzim estivessem trabalhando, eles estariam constantemente sujeitos a serem tolhidos pelos perigos do mar. Diga-se de passagem, que aqueles notórios e inconfundíveis homens do mar de Portugal, vieram a ser vítimas em muitos acidentes tanto na costa brasileira, como na portuguesa e isto se encontra bem evidenciado num fato: no mesmo ano em que Agostinho André por pouco não teria como túmulo o mar do Brasil, um mês antes, ou seja, no dia 2 de janeiro, tinha acontecido o naufrágio da lancha São José, na barra da Póvoa, que matando 11 homens, cobriu de luto a pitoresca colméia piscatória da beira-mar portuguesa. Mas nada se compara com o fatídico 27 de fevereiro de 1892, quando o mar ibérico sentenciou 108 poveiros à morte. Vidas desperdiçadas! Quantas viúvas, mães e filhos, desconsolados, ficaram a verter lágrimas dia e noite, molhando o frio leito da praia de suas vidas. Cena pungente e constante que se abatia sobre aquela sofrida colméia de valentes!

E como os antigos poveiros eram férteis em promessa aos santos quando lhes acudiam nas suas desventuras, acreditamos que certamente o ex-voto da igreja do arraial de pescadores do Cabo, foi ofertado por Agostinho André, um dos muitos audazes e atrevidos poveiros que imigrando para o Brasil, passariam a ensinar os brasileiros a ousar a pescar longe da costa nos seus típicos barcos de uma só vela, que os brasileiros batizaram de “pano poveiro”. Lançar os brasileiros em direção ao mar profundo, foi um dos legados da tradição e do labor do poveiro, que nunca temeu o mar longínquo e sorrateiro, para adquirir os “cobres”, dinheiro!

“Ó mar sagrado, ladrão,
Quantas almas tens em ti!
Tu roubaste o meu amor,
Já vingaste de mim!”

( do Cancioneiro Poveiro )


Lancha Poveira.

A vassoura é como a morte: rico e pobre, na mesma sorte

Tal como ocorreu no mar de Portugal, no passado, centenas de dramas lúgubres se passaram nas estradas do mar brasileiro. Algumas daquelas histórias, só tomamos conhecimento através das pesquisas em velhos jornais e através dos relatos fornecidos pela tradição oral. De modo que por meio dos raros ex-votos guardados nas capelas e igrejas centenárias do litoral do Brasil, também teremos a oportunidade de conhecer uma pequena parcela da história trágico-marítima, já que nos ex-votos, mesmo sendo pinturas primitivas, nos revelam: o nome da embarcação, a data do ocorrido, os nomes dos devotos, assim como as circunstâncias do momento da tempestade, do naufrágio ou de outros infortúnios. Naturalmente, esses ex-votos viessem a preencher as paredes rústicas dos santuários costeiros, fazendo parte do seu tesouro sagrado, já porque registrava e testemunhava publicamente os milagres creditados aos santos patronos. Em geral, à grande maioria dos quadros refletiam os momentos de angústia vividos pelos tripulantes e passageiros durante a tempestade, ventania ou o abalroamento por uma embarcação maior e se geralmente a pintura rudimentar representava a embarcação e a sua gente embarcada em perigo, no entanto era inspirado no relato fiel daqueles que sobreviveram diante, acreditando assim, que receberam a graça da salvação.

Essa original fonte de informação sobre o passado marítimo é decorrente do surpreendente mundo religioso dos homens do mar de outrora, porquanto a freqüente realização de promessas ou votos era uma forma particular de se relacionar com o sobrenatural, uma vez que recorrendo aos santos em situações de limite extremo, os marítimos e passageiros acreditavam que seriam socorridos do terrível fantasma da morte por afogamento. E assim sendo salvos das garras do mar, agradeciam o milagre com um ex-voto, que na verdade era uma forma que foi desenvolvida para se relacionar mais diretamente com os santos na falta da intermediação dos padres, os quais, diga-se de passagem, tinha na antiga cultura funerária, uma participação preponderante, principalmente como agentes credenciados que mais eficazmente possível teriam condições de guiar os homens católicos na operação em torno dos derradeiros e dramáticos momentos de suas vidas. Momentos esses, decisivos, em que uma falha no ritual podia redundar na perdição definitiva da alma do moribundo.

Ora, em tempos passados, uma das formas mais temidas de morte era aquela sem enterramento adequado, isto é, morrer no mar, por exemplo, era particularmente terrível, uma vez que um dos aspectos fundamentais da antiga cultura funerária encontrava-se na escolha adequada do lugar da sepultura. Em outras palavras, os homens temiam morrer no mar, uma vez que se acreditava que este tipo de morte comprometia a salvação da alma, daí ser o Atlântico encarado entre certas parcelas do povo do nordeste brasileiro, como sendo o local por onde perambulam as almas penadas da pessoas que sucumbiram nos naufrágios. O estudioso das tradições populares, usos e costumes da comunidade marítima poveira, António Santos Graça (1882/1956), escreveu em seu livro “O Poveiro”, que dentre os seus princípios religiosos, os pescadores da Póvoa tinham quando adoecidos, a preocupação de se preparar par a morte: “E é o primeiro a pedir para se confessar e comungar, ficando, assim, mais tranqüilo e encarando o fim da vida com resignação, sem nenhuma espécie de sobressaltos”. E o citado etnógrafo, ainda acrescenta que a morte repentina era encarada pelos pescadores da Póvoa, com “verdadeiro horror, porque não lhe dá tempo para regularizar a sua vida espiritual”.

“Ai! A morte quando vem,
Com a vassoura, varre a eito;
Varre pobre, varre rico,
A ninguém respeito.”

( do Cancioneiro Poveiro )

Vela grande e aguaceiros: os poveiros eram grandes romanceiros

Assim, uma eventual morte sem sepultura e sem receber algum tipo de sacramento antes de falecer, estavam relacionadas com a preocupação da maioria dos homens do mar com o destino de suas almas. Isto quer dizer que para eles deveria existir uma morte ideal, a qual não devia ser uma morte solitária e privada sem os devidos rituais, ou seja, a morte deveria ser na própria cama, na presença de parentes, amigos, rezadeiras e padres para ministrar a penitência, comunhão e extrema-unção e cujo corpo envolto numa mortalha seria sepultado em solo sagrado: dentro da igreja ou num cemitério cristão, assim era o desejo máximo de todos os católicos do passado:“Morto, é amortalhado com hábitos das cores das vestimentas dos santos do seu nome ou com o balandrau da Misericórdia, sendo irmão, ou ainda o hábito de S. Francisco, pertencendo à Ordem Terceira. A sala é forrada de panos pretos, tendo ao centro uma cruz onde levantam um altar para a colocação da imagem do Crucificado, ladeada por quatro velas. Sobre a porta da casa, pregam um pano preto par indicar a quem por ali passa que há ali um morto a quem se deve oração. À volta do caixão, as pessoas da família e os amigos choram alto, com grandes exclamações, relembrando a vida do morto e o seu amor à família. (...) Durante oito dias, os homens da família envergam o seu gabão do mar, com capuz pela cabeça. É o seu luto carregado”. (António Santos Graça, O Poveiro, 1932)

Em verdade, as concepções sobre a maneira como se esperava a morte, o momento ideal de sua chegada, os ritos que a procediam e sucediam e o local da sepultura, eram todas, questões importantíssimas sobre as quais se gravitava os pensamentos e as ações de todo bom católico luso-brasileiro. As cerimônias e a simbologia, que envolviam a morte, deveriam ser produzidas para promover uma boa viagem para o além, em outras palavras, tudo era feito com vistas a pôr a alma no caminho certo da salvação. De modo que era importante não ser tomado de surpresa pelo último ato no mundo dos vivos; daí por que a morte acidental, a exemplo de falecer no mar, era vista como grande desventura.

Ora, uma morte para que fosse boa, devia ser de alguma forma anunciada por meio de algum sinal, a exemplo de uma doença, a qual, segundo o padre Bernadino José Pinto de Queirós (autor de um manual de assistência aos agonizantes publicado em 1802 - uma espécie de manual de bem morrer de mais de trezentas páginas), seria uma prova da colaboração de Deus para facilitar a salvação da alma, porque se assim não fosse, assim concluía aquele padre: Deus mandaria uma morte repentina. E segundo as regras da antiga cultura funerária, a primeira estratégia de salvação seria então de organizar cuidadosamente a própria morte, quando esta vinha servir de oportuno momento de reparação moral.

“Ó mar, caixão dos navios,
Ó cama dos marinheiros;
Debaixo da vela grande,
Se agantam os aguaceiros”

( do Cancioneiro Poveiro )

No mar, triste vida dura, eles trabalham em cima da sepultura

A elaboração de ex-votos brasileiros é uma genuína herança da manifestação da arte popular religiosa européia; uma arte votiva não só difundida entre os portugueses, como no seio de outros povos marítimos das nações católicas do velho continente.

Em casos de tempestade, fosse no mar de Portugal ou do Brasil, os homens do mar tinham plena convicção de que ela não se apaziguava por si mesma, o que era preciso a intervenção do santo mais acessível na escala milagreira. E havendo sobreviventes dos naufrágios, eles nunca deixavam de pagar as promessas, uma vez que tomavam os santos como advogados ciosos de sua atividade, crendo que eles não perdoariam facilmente o calote dos devotos. Portanto, para a concepção dos homens do mar, era muito perigoso ficar devendo promessas, pois assim achavam que os santos uma vez lesados poderiam se abster de qualquer nova intervenção em situações em que as frágeis vidas humanas estivessem ameaçadas.

Cabe finalizar dizendo que o procedimento do voto de origem marítima se desenrolava em três momentos distintos: a prova, em que o homem dava-se conta de sua fraqueza diante dos elementos hostis da natureza marinha e pedia uma proteção sobrenatural, a promessa solene feita no momento de angústia e, finalmente, o momento do pagamento da promessa ou voto.

“A vida do marinheiro,
É uma vida triste e dura,
Pois toda a vida trabalha,
Em cima da sepultura.”

( do Cancioneiro Poveiro )

O Principessa Mafalda.

Nota Final

Não resta dúvida de que as minhas dificuldades em resgatar a história das batalhas diárias dos poveiros no mar do Brasil, na sua busca pela sobrevivência, residem fundamentalmente nos claros documentais. Portanto, é através da utilização das técnicas da história oral que me é possível à elaboração da maior parte das pesquisas sobre os fatos e os feitos realizados pelos pescadores da Póvoa de Varzim no vasto mar brasileiro. E uma das pesquisas encontra-se, relacionada com a descoberta do ex-voto da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios – pequeno santuário do século XVIII, situado na Praia dos Anjos, na cidade de Arraial do Cabo, no estado do Rio de Janeiro. Embora os testemunhos orais estejam sujeitos a memórias humanas falíveis, eles são e sempre serão inestimáveis, pois nos fornece um rico pano de fundo. Ora, essas fontes vieram a me ajudar a recriar parte da história da saga dos poveiros no mar da região onde resido. Embora as entrevistas precisam ser tratadas com algum ceticismo, repetidas vezes mostram que a história oral muitas vezes mais enriquece que contradiz os documentos históricos. Do outro lado, com demasiada freqüência, a história é escrita sem o elemento humano, quer dizer, sem saber o que as pessoas pensaram, sentiram e acreditaram. E a história oral ajuda a reconstituir muito dos pensamentos, sentimentos e crenças de um povo, e se referindo aos poveiros, a herança do universo simbólico e cultural daqueles homens originalíssimos, herdado pelos brasileiros, foi vastíssima. Quisera eu ter meios para percorrer todos os locais da costa brasileira, a fim de recolher todas a informações sobre a saga dos poveiros que ainda estão guardadas no seio da tradição oral.

Mas seja como for, uma saudável combinação de uns poucos documentos e testemunhos orais expande nosso senso da história humana. Acontece que muitas vezes lemos sobre homens e não sentimos qualquer ligação humana com eles. E as entrevistas servem justamente para tentar cobrir esse fosso e fornecer aos leitores, meios de entrar nos pensamentos e sentimentos do povo brasileiro, que guardou em suas lembranças, fatos e feitos cotidianos, de um tipo de pescador original e inconfundível da beira-mar portuguesa.


Bibliografia consultada:

Amado, Janaína e Ferreira, Marieta de Moraes
2002 - Usos e Abusos da História Oral, Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas;

Graça, António Santos
1932 - Póvoa do Varzim, Edição do Autor;

Reis, João José
1991 – A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX, São Paulo, Editora Schwarcz Ltda.

Elísio Gomes Filho, brasileiro, descende de portugueses. É escritor e historiador, com pós-graduação em História do Brasil. Foi fundador dos Museus Históricos Marítimos do Cabo Frio (1987) e de Armação dos Búzios (2001). Através de suas pesquisas, descobriu que o barco de pesca “Changri-lá”, foi atacado pelo submarino alemão U-199 em julho de 1943 no mar do Brasil. A elucidação do motivo do desaparecimento do pesqueiro, teve grande divulgação na mídia brasileira, que culminou com uma entrevista do historiador no programa do Jô Soares em outubro de 2004. E entre os dez homens mortos pelos alemães, figuravam três pescadores portugueses, os quais passaram a ter seus nomes imortalizados no belo Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial numa solenidade ocorrida em 6 de junho de 2004 - no Aterro do Flamengo (RJ). E assim para aumentar a galeria dos homens ilustres da Póvoa de Varzim, entre os pescadores portugueses sacrificados por ato da guerra, encontra-se o poveiro José da Costa Marques.A origem dos outros está sendo pesquisada e talvez também sejam originários da Póvoa de Varzim. Maiores informações sobre o trabalho do historiador Elísio Gomes Filho, pode ser investigado no site www.nomar.com.br , com o título: "Os Historiadores do Mar" e criado pelo mesmo, com o objetivo de contribuir para a produção de conhecimentos e consciência de preservação do ambiente marinho e da divulgação da história marítima e naval, brasileira e internacional (particularmente a portuguesa).


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Sunday, October 30, 2005

 

Um estudo interpretativo das ações de um submarino alemão nas águas do Brasil

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Do Fundo do Mar
By Elísio Gomes Filho
October 30, 2005

Tipo IXC U-boat U-507.

U-507 - Por Um estudo interpretativo das ações de um submarino alemão nas águas do Brasil

“O mérito do historiador não é se passar por profundo, mas saber em que simples nível funciona a história; não é ter uma visão elevada ou mesmo realista, mas julgar bem as coisas medíocres”.

(Paul Marie Veyne)


“Terminou assim a campanha submarina. Prenhe de sacrifício e coragem, honrosa e sem mácula, foi a conduta das guarnições durante a batalha. De, aproximadamente, 38 000 homens que compunham a arma submarina, 30 000 foram perdidos. Em compensação, seus êxitos foram sem par.

De acordo com dados inimigos, foram afundados mais de 2 000 navios, ou sejam,
pelo menos 14 milhões de toneladas...”

Almirante Karl Doenitz

Karl Doenitz após a saída da prisão de Spandau.

As palavras do almirante Karl Doenitz escritas em louvor aos atos perpetrados por seus obstinados subordinados na guerra submarina, obviamente não correspondem com a realidade e nem poderia ser de outra maneira, já que a guerra submarina tende a se deteriorar rapidamente, porque uma de suas funções, é a de matar não somente marinheiros e destruir navios, mas a vontade moral de um país de continuar a luta. É bem verdade que a devotada campanha dos U-Boote se inseriu na Tonnagekrieg, isto é, na estratégia da guerra da tonelagem, pela qual, os alemães objetivavam tirar dos Aliados à franca capacidade de poderem transportar pelos oceanos matérias primas, o que incluía petróleo necessário ao esforço de guerra, bem como material de guerra, munições e efetivos militares.

Contudo, a guerra submarina, em ambos os lados, foi praticada sob forma atroz, cruel e muitas vezes, criminosa. Diga-se de passagem, que poucas tentativas foram feitas por submarinos dos Aliados para salvarem inimigos sobreviventes depois que os navios haviam sido afundados. E houve até um comandante de um submarino norte-americano, que depois de ter torpedeado um navio japonês, ordenou que seus subordinados atirassem em todos os sobreviventes, que se debatiam no mar. Assim, no Tribunal de Nuremberg, os advogados de defesa, tentaram tirar o máximo partido de uma afirmação: tu quoque (“você é outro”), considerando que, entre os crimes denunciados, havia pelo menos alguns igualmente cometidos pelos Aliados. Estritamente falando, a culpa semelhante, suposta ou comprovada, de outra pessoa, nunca pode ser admissível como defesa legal válida, mas seu efeito moral e psicológico pode ser considerável. Isto deve ter pesado muito em favor dos almirantes Doenitz e Raeder, uma vez que ambos tinham sido acusados de “fazer guerra submarina irrestrita”, e ambos foram absolvidos dessa acusação, alegando-se que a Grã-Bretanha e os EUA haviam reconhecidamente feito a mesma coisa.

É bem verdade que nos meses intermediários entre seu rompimento de relações diplomáticas e sua declaração de guerra, o Brasil estava, em face da Alemanha e Itália, numa situação que poderíamos chamar, bastante apropriadamente, de quase-beligerância. Mas o que foi feito no mar costeiro brasileiro, desonra a conduta do almirante Doenitz e torna-o culpado de haver cometido crime de guerra?

Através das próprias palavras daquele oficial alemão, poderemos acusá-lo de crime de guerra, sem sermos taxados de tendenciosos, uma vez que ele não esconde o seu desejo de praticar um ato de represália contra o Brasil. Ora, não é difícil expor que ele tentou justificar a ação terrorista cometida pelo U-507 através de uma ambigüidade sem igual. Como então constataremos mais à frente, ao mesmo tempo, que Doenitz confessa que a ordem do deslocamento de um único submarino para atacar navios brasileiros (os quais ele sabia de antemão que seriam navios de navegação doméstica) partiu de sua boca, contudo dilui a sua responsabilidade pessoal, ao registrar que tal ataque seria para “agir de acordo com as instruções recebidas”, com a cooperação do seu ministro do Exterior, quando na verdade, Joachim von Ribbentrop, veio autorizar ações somente ao “largo do Brasil”, zona aonde obviamente não se encontrariam navegando navios das linhas de cabotagem no transporte de passageiros.

De modo que Doenitz não preza por dizer a verdade, ao revelar que o seu submarino afundou cinco navios nacionais “fora das águas territoriais brasileiras”. É bem verdade que pelo decreto 5.798 de 1940, o mar territorial brasileiro tivesse a largura de apenas três milhas, mas as atividades anteriores dos submarinos do Eixo no Atlântico Sul sempre se fizeram em zonas bem distantes da estreita faixa de águas territoriais brasileiras, isto é, efetuavam seus ataques exatamente ao “largo do Brasil”, procurando atingir a navegação de longo curso, assim como os navios de guerra das nações aliadas. Ora, um dos mais completos, estruturados e conhecidos wibe-site sobre submarinos e submarinistas alemães (Uboat.net), propaga aquela inverdade advinda do sucessor de Hitler, o comandante da Força de Submarinos, o último comandante-em-chefe da Marinha alemã, o qual ordenou o assassinato de brasileiros indefesos.


Foto de um submarino alemão, que se julga ser o U-507,
sob ataque de um PBY5-A da VP83.

Seria uma ação de terrorismo ou uma ação bélica?

A região marítima ao “largo do Brasil” era secundária em termos de fluxo marítimo, ou seja, as zonas distantes da costa brasileira não possuíam representatividade marítima comparável com a região da costa leste dos EUA (região aonde aconteceram quase 70% das perdas hemisféricas no primeiro trimestre de 1942), do Golfo do México e do Caribe, ou seja, a guerra submarina contra o comércio marítimo dos Aliados foi travada em um cenário principal. Contabiliza-se que no período de janeiro a junho de 1942, 325 navios foram afundados no litoral e ao largo das Américas, quase a totalidade dos quais na porção norte do hemisfério. Em outras palavras, o Atlântico Sul era um teatro secundário para as operações submarinas do Eixo (é importante frisar que durante todo o ano de 1942 nenhum submarino do Eixo foi afundado ao largo do litoral do Brasil), de modo que se conclui que a guerra submarina travada ao sul do continente americano pouco interesse desperta entre os pesquisadores estrangeiros, mas não sabem eles, ou não tem interesse em saber que as ações dos submarinos do Eixo no Atlântico Sul, fosse travada em zonas afastada do litoral, fosse travada próximo deste, deixaram marcas profundas e indeléveis, antes e depois da declaração de guerra do Brasil. Por exemplo, os torpedeamentos dos navios mercantes Baependi, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará, que ocorreram entre 15 e 17 de agosto de 1942, se constituíram em um dos episódios mais dramáticos da História Contemporânea do Brasil. As atrocidades que foram planejadas e que vieram a serem praticadas por um só submarino, que atuou sob a bandeira da cruz suástica, motivaram grande e furiosa reação popular e levou o país a declarar guerra à Itália e à Alemanha. Trata-se então de atos de terrorismo por demais sérios para não guardarmos nenhuma dúvida sobre suas reais motivações e autoria.

Seria uma violência criminosa armada ou uma ação bélica?

O Brasil sob o governo ditatorial de Vargas, por sua posição geográfica estratégica oferecida pela costa Norte e Nordeste e por ser potencialmente exportador de uma variada gama de matérias-primas de grande valor imprescindíveis à indústria e mobilização bélica norte-americana e por outros fatores de interesse dos EUA - pressionado por todos os lados, mas tendo previamente assegurado seus interesses econômicos e militares – optou por escolher em trilhar o temerário caminho ao lado do governo de Roosevelt, o qual tenazmente se colocou contra os objetivos políticos e estratégicos das potências do Eixo. Não há como negar: a Segunda Guerra Mundial é o ponto de virada na história das relações entre o Brasil de Getúlio Vargas e os EUA de Roosevelt. No mês de janeiro de 1942, não havia mais dúvida de que o Brasil sob a ditadura do Estado Novo passaria a acompanhar o manto democrático-liberal dos EUA na luta contra o totalitarismo nazi-fascista. E as palavras do embaixador alemão, Pruefer, dirigidas ao chanceler Oswaldo Aranha deixou bem claro o que aconteceria se o Brasil rompesse relações com as potências do Eixo: “(...) significaria, indubitavelmente, o estado de guerra latente, acarretando provavelmente ocorrências que equivaleriam à eclosão da guerra efetiva”.

Portanto quando em 24 de maio de 1942, o comandante do U-502 comunicou que havia afundado no Caribe um navio mercante brasileiro que se encontrava artilhado - o Gonçalves Dias - e quando a partir do dia 27 do mesmo mês, o Ministro da Aeronáutica, Salgado Filho, veiculou, uma notícia de que seus aviões haviam atacados sem declaração de guerra, submarinos do Eixo, a Marinha alemã solicitou que fossem levantadas todas as restrições para ataques a navios brasileiros. A Alemanha, tal como os EUA e a Grã-Bretanha - com uma liderança militar, indisfarçadamente desejosa de sangue, e portadora de uma vingatividade viciosa e de atitudes irracionais, sobre as quais nos deu vários exemplos, seja na Batalha do Atlântico, ou em outros teatros de operações navais e terrestres - não era para levar uma bofetada na face de um país militar e politicamente fraco, sem uma dura resposta de retaliação. Logo, os navios de navegação doméstica brasileiros se tornariam alvos da violência criminosa armada, desproporcional, feita em nome de uma reação punitiva. Os civis brasileiros pagariam caro pela ousadia praticada pelos aviões do Ministério da Aeronáutica, o qual foi criado em 20 de janeiro de 1941, isto é, a FAB fora instituída exatamente sob as circunstâncias do franco envolvimento do governo brasileiro ao lado dos EUA na luta contra o Eixo.

Naquela conjuntura, o Brasil era um país pacífico?

Duas das vitimas do U-507, o Aníbal Benévolo e o Arará.

No dia 7 de agosto de 1942, Doenitz tomou uma decisão que mudaria a História Contemporânea do Brasil: o U-507 recebeu por rádio a mensagem para usar “manobras livres” ao longo da costa brasileira. De modo que o submarino comandado pelo capitão-de-corveta Harro Schacht, afundou cinco navios brasileiros de cabotagem nos litorais de Sergipe e Bahia, acarretando a morte de 652 pessoas, inclusive de mulheres e crianças. No Baependi, todas as crianças foram mortas, apenas um garoto de dezesseis anos se salvou. Diga-se agora e a bem da verdade que a grande mortandade ocorrida nos afundamentos do Baependi, do Araraquara e do Aníbal Benévolo foi devido ao tipo de ataque desfechado pelo comandante Schacht, pois, lançando dois torpedos um após outro, seja ele (o tipo do ataque), como outros o queiram uma opção “puramente técnica” a fim de concluir com “êxito a sua missão”; mas em nossa opinião, o que fez o comandante do U-507, foi uma ação desumana e criminosa, pois levou aqueles navios ao fundo em questões de minutos e isso debaixo de uma noite escura e de um mar revolto. Em outras palavras, a totalidade dos tripulantes e passageiros daqueles navios, devido à “máxima eficiência” do comandante do U-507, não teve a oportunidade de abandonar os navios devido ao rápido afundamento.

O capitão-de-corveta Schacht sabia mais do que ninguém que lançando um torpedo após outro, viria causar o maior número de vítimas fatais entre os passageiros dos navios brasileiros. E voltamos a repetir, em nossa opinião, não se tratou de uma ação bélica, mas foi uma ação revestida de uma violência criminosa armada, desproporcional, feita em nome de uma reação punitiva. Cabe, portanto, dizer que vários comandantes dos U-Boote procuraram agir com mais humanidade (ou como outros o queiram, com a “mínima eficiência”), na guerra submarina, já que muitos decidiam atingir os navios inimigos com um só torpedo, a fim de dar tempo para que seus ocupantes chegassem aos barcos salva-vidas, tal como se deu com a maioria dos navios brasileiros atacados antes de agosto de 1942. Mas esta não foi à conduta tomada pelo capitão-de-corveta Harro Schacht, ao atacar os três referidos navios. É bem verdade que não sabemos se aquele tipo de ataque partiu dele ou se foi uma imposição superior, mas seja como for, para se ter uma idéia da dimensão das atrocidades praticada pelo U-507, somente uma baleeira do Baependi (o qual, segundo o depoimento de um radiotelegrafista, o navio afundou “com o espaço de um e meio minuto”), atingiu a costa no dia seguinte, com 28 sobreviventes. E apenas oito náufragos, agarrados em destroços de madeira, lograram alcançar a terra dois dias após o ataque. Portanto, das 305 pessoas que estavam a bordo do famoso navio do Lloyd Brasileiro, pereceram 269. Já entre os 142 ocupantes do Araraquara (o qual demorou cinco minutos para afundar), 131 morreram. Tanto pior, ocorreu com o Aníbal Benévolo (perdeu-se em dois minutos), pois morreram todos os seus 83 passageiros e apenas quatro dos 71 tripulantes, sobreviveram. Foi uma matança sem igual, porquanto até fins de julho de 1942, a Marinha Mercante brasileira de longo curso que tinha perdido treze navios, totalizava 135 vítimas fatais.

Obviamente, os massacres, cometidos pelo U-507, provocaria grande consternação entre o povo brasileiro. A indignação pública foi geral. Em várias cidades houve violentas manifestações populares contra súditos do Eixo e suas propriedades. E talvez entre todos os estados, foi a população de Sergipe quem mais se excedeu, já que muitos dos passageiros e tripulantes do Aníbal Benévolo, lá tinham parentes. Tanto o governo autoritário do Estado Novo quanto a opinião pública que vivia manietada pelo DIP, consideraram indispensável uma reação. O Brasil seria lançado definitivamente na Segunda Guerra Mundial. No Rio de Janeiro, a notícia, divulgada no dia 18 de agosto, desencadeou uma série de passeatas e comícios populares, onde os cariocas não exigiriam outra coisa, senão: retaliação. No fim da tarde, uma massa popular se dirigiu para o Palácio do Itamaraty - sede do Ministério das Relações Exteriores - clamando pelo chancelar Oswaldo Aranha, que apareceu na sacada do edifício para exclamar: “A situação criada pela Alemanha, praticando atos de beligerância, bárbaros e desumanos contra a nossa navegação pacífica e costeira, impõe uma reação à altura dos processos e métodos por eles empregados contra oficiais, soldados, mulheres, crianças e navios do Brasil. Posso assegurar aos brasileiros que me ouvem, como a todos os brasileiros, que, compelidos pela brutalidade da agressão, oporemos uma reação que há de servir de exemplo para os povos agressores e bárbaros, que violentam a civilização e a vida dos povos pacíficos”.

Mas em verdade, desmentindo as palavras revanchistas daquele chanceler, o Brasil estava longe de ser um país pacífico, vide o que a FAB já estava praticando em maio de 1942, ao procurar deliberadamente atacar os submarinos italianos que estavam posicionados ao largo da costa nordeste brasileira. Em outras palavras, o Brasil, após o rompimento de relações com o Eixo, fornecia aos norte-americanos, conforme esclarece Gerson Moura, “apoio político, materiais estratégicos, bases e rotas aéreas, patrulhas aéreas e navais” e a eliminação da Quinta Coluna nazista.

As memórias equivocadas de Doenitz

Como dito acima, em agosto de 1942, o Brasil já estava em beligerância não declarada com o Eixo, mas sobre o acontecimento que obviamente chocaria o Brasil, o almirante Karl Doenitz, em suas memórias, veio assim relatar: “Finalmente, havia a possibilidade de operações ao largo da costa do Brasil. Nossas relações políticas com aquele País vinha há já algum tempo cada vez mais se deteriorando e as ordens emitidas pelo Alto Comando Naval referente à nossa atitude para com a navegação brasileira se agravaram em correspondência (...) Depois que o Brasil rompeu relações diplomáticas, seus navios continuaram a serem tratados da mesma maneira que os de todos os outros Estados neutros, desde que fossem reconhecidos e agissem como neutros, de acordo com a Convenção Internacional. No entanto, entre fevereiro e abril de 1942, os U-Boote torpedearam e afundaram sete navios brasileiros, com todo direto de fazê-lo de acordo com o estabelecido na Convenção de Praças de Guerra ( Prize Ordenance), desde que os capitães dos U-boote não puderam reconhecer suas identidades de neutros. Estavam navegando sem luzes em curso de zigue-zague, alguns deles armados e alguns pintados de cinza e nenhum deles ostentavam uma bandeira ou signo de sua identidade de neutro. Depois disso mais e mais navios brasileiros montaram canhões até que toda sua Marinha Mercante estava armada”.

Aqui, é preciso, interrompermos Doenitz, para afirmar que as informações fornecidas por ele não correspondem com a verdade, o que em nossa opinião, demonstra falta de senso de honra e coragem moral daquele almirante alemão, uma vez que ele bem sabia que os três primeiros navios afundados em fevereiro de 1942 (Cabedelo, Buarque e o Olinda), navegavam com as luzes de bordo e de navegação acesas, assim como estavam iluminadas as bandeiras do costado e da popa, bem como a chaminé que identificava a nacionalidade e a companhia proprietária. E infelizmente, depois dessas investidas por parte da ressentida Alemanha contra os interesses brasileiros, que o governo varguista tomou medidas para tentar evitar que os seus barcos fossem afundados tão facilmente, de modo que os mercantes brasileiros passaram realmente a navegar como se não pertencessem a uma nação neutra. Assim, o quarto mercante a ser atacado e afundado pelo U-155 - o Arabutã - estaria pintado de cinza, estaria navegando às escuras e sem bandeira, isto é, estaria em situação bastante irregular e comprometedora.

E foi após a perda do Cairú, atacado pelo U-94 (o quinto da série, que veio gerar a morte de 53 pessoas devido ao mau tempo que colheu os náufragos nas baleeiras) que também navegava camuflado e viajava às escuras ao largo da costa leste dos EUA, que os navios mercantes brasileiros começaram a serem dotados de um sistema de defesa, dispondo de uma peça de artilharia. Assim, o Parnaíba, o sexto navio torpedeado no dia primeiro de maio de 1942 pelo U-162, trazia na popa um canhão de 120mm. Entrava-se então numa dialética de ação e reação de atos de beligerância.

Ele confessa: dele, partiu a ordem para o comandante do U-507 destruir e matar

Voltemos ao relato de Doenitz: “No fim de maio, o Ministro da Aeronáutica brasileiro anunciou que um avião brasileiro tinha atacado submarinos do Eixo e que continuaria a fazê-lo. Sem nenhuma declaração formal, achamo-nos assim num estado de guerra com o Brasil, e a 4 de julho os U-Boote receberam permissão dos nossos líderes políticos de atacarem todo os navios brasileiros”.

Aqui igualmente é necessário interrompermos Doenitz, porém para corroborar com o que ele registrou, já que o pesquisador alemão Jurgen Rohwer, veio relatar em uma palestra proferida na Escola de Guerra Naval em 28 de março de 1982 (Operações Navais da Alemanha no litoral do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial) que “como represália pelo ataque de aeronaves brasileiras contra os submarinos alemães e a instalação de armamento a bordo dos navios mercantes brasileiros, novamente informado pelo U-203, após o afundamento do Pedrinhas, em 26 de junho, ao norte das Antilhas, em 4 de julho o ataque sem advertência a todos os navios brasileiros foi permitido”. Mas em verdade, a maioria dos ataques aos navios mercantes brasileiros de longo curso, sempre se fizeram sem advertência, mas com relação “a todos os navios brasileiros”, passariam então a serem incluídos também os navios de navegação doméstica, ou seja, aqueles que transportavam passageiros, nas linhas de cabotagem?

De novo, com a palavra, Doenitz: “Na primeira semana de julho, quando estávamos planejando as primeiras operações dilatadas de U-Boote, perguntei ao Ministro do Exterior se haveria alguma objeção às planejadas operações ao largo do estuário do Rio da Prata, área de reunião para os navios-frigoríficos que eram tão importantes no suprimento de carne da Inglaterra. Sem considerar a opinião da Argentina, o Ministro do Exterior negou permissão para qualquer operação ao largo das costas daquele País, mas não fez objeção à continuação de nossas atividades ao largo do Brasil, que haviam sido permitidas em maio e que estavam em progresso desde então. Decidi, portanto, mandar, em associação com as operações planejadas contra o tráfego de navios Norte-Sul ao largo de Freetow, mais um barco para a costa brasileira. Do outro lado do estreito entre a África e a América do Sul, o U-507(Tenente-Comandante Schacht) estava operando. Ali fora das águas territoriais, ele afundou cinco navios brasileiros. Nisto ele agia de acordo com as instruções expedidas, com a cooperação do Ministro do Exterior, pelo Quartel-General das Forças Armadas. O Governo brasileiro tomou o afundamento destes navios como ocasião para declarar guerra à Alemanha. Embora isto não tivesse em nada alterado nossas relações existentes com o Brasil, que já havia tomado parte em atos hostis contra nós, foi sem dúvida um erro levar o Brasil a uma declaração oficial; politicamente deveríamos ter sido melhor, aconselhados para evitar tal fato. O Comando de Submarinos / Departamento de Operações, porém, e o capitão do U-Boot envolvido como membros das Forças Armadas, não tinham senão que obedecer às ordens que lhe haviam sido dadas; não competia a eles pesar e calcular as conseqüências políticas (...)”

Com base nos fatos e argumentos, corrigindo enganos e apontando dissimulações de ambos os lados

Podemos conferir claramente que Karl Doenitz não esconde o fato de que o ministro do Exterior alemão, Ribbentrop, não fez objeção de fazer guerra submarina ao “largo do Brasil”, mas do outro lado, é fácil interpretar que não seria do consentimento do próprio Ribbentrop que os navios de navegação doméstica viessem a ser alvos dos submarinos, já que obviamente estariam navegando próximos da costa e não ao largo. Em outras palavras, caso os navios de cabotagem brasileiros fossem atacados, as suas prováveis conseqüências negativas, estariam em direta contradição com a da contra-ordem anterior advinda de Hitler. Diga-se de passagem, que os torpedeamentos dos mercantes Itagiba e Arará, foram tão próximos do litoral baiano, que se podia observar a paisagem litorânea. Mas os afundamentos do dia 17 de agosto na zona costeira da Bahia, igualmente nos revela mais outro ato criminoso, desumano e vergonhoso praticado pela arma alemã, porquanto Schacth afundou o Arará justamente no momento quando aquele navio acabava de recolher os náufragos do Itagiba. Obedecendo as regras dos homens do mar, o comandante do Arará, José Coelho Gomes, tinha mudado de rumo para prestar socorros às vítimas que se debatiam nas águas e quando já estava aquele cargueiro com 18 náufragos a bordo, divisou-se do seu bordo o torpedo contra ele lançado. O Arará desmantelou-se e afundou, levando consigo, os náufragos que haviam sido resgatados, sendo que uns deles se salvaram, mas a maioria, desaparecera. O Itagiba que transportava 119 pessoas, 36 pessoas foram sacrificadas, sendo 10 tripulantes e 26 passageiros e no Arará, 21 dos 35 tripulantes, foram assassinados.

Antes de passarmos a analisar outros argumentos alegados pelo almirante alemão, com o objetivo de se coloque às claras as suas justificativas, as quais não passam de manobras diversionistas destinadas a diluir a sua responsabilidade pessoal na ação cometida pelo U-507, é necessário dizer que o gesto do ministro da Aeronáutica, Salgado Filho, em assumir publicamente a responsabilidade dos ataques de aviões brasileiros aos submarinos do Eixo (fato a que se refere acima Doenitz), em nossa opinião, não só foi precipitado, mas também imprudente e irresponsável, uma vez que para a direção da guerra marítima alemã, as ações dos aviões da FAB não deixavam nenhuma dúvida: o Brasil vinha participando ativamente, ao lado dos Aliados, nas operações de guerra.

Como historiadores, procuramos não sermos guiados pelos “achismos” históricos. Procuramos sim, pesquisar atentamente, visando descobrir o que se encontra na maioria das vezes, escondido nas intenções dos homens que constroem os fatos históricos. Portanto, o presente trabalho de pesquisa é um estudo interpretativo que busca iluminar alguns aspectos desse intrincado processo de nossa História Contemporânea. E para esclarecimento da memória nacional e internacional, procuramos sempre seguir o caminho de adotar critérios imparciais e objetivos para sermos o mais justo que podemos em nossos julgamentos, sobre tomadas de decisões que ora, se encontram distantes; as quais foram mistas, ou seja, decisões político-militares, outras, puramente militares e por fim, aquelas influenciadas por personalidades e fatores de prestígio.

Algumas decisões tomadas, principalmente pelo titular do Ministério da Aeronáutica do governo de Vargas, canalizaram o curso de nossa História naquela conflagração sem precedentes. Fazer o julgamento de brasileiros que tiveram participação de relevo naquele nebuloso contexto histórico do país é necessário; não pelo prazer de explorar controvérsias e muito menos de fomentar polêmicas, mas para melhor entender os caminhos que eles e os de sua geração seguiram naquela época conturbada. E querer reconstituir os fatos reais, requer um minucioso trabalho de pesquisa, a fim de ficarmos ao máximo isentos de nos tornamos tendenciosos, face, a um assunto delicado, uma vez que envolve atos tidos como exemplos de heroísmos e cumprimento de dever patriótico, os quais foram praticados em ambos os lados. É preciso conhecer os personagens, o cenário, o contexto e, além disso, ter a ciência de que a visão de uma época, só adquire clareza a partir de seu exame com fins interpretativos, relacionados ao ambiente econômico, político, social e cultural contemporâneos aos fatos.

De modo que podemos inferir que o ato do ministro Salgado Filho naquele contexto, sendo influenciado pelo desejo de conquista de reconhecimento e de glórias militares para o seu Ministério - criado exatamente nos anos da guerra (1941, ano em que também com a colaboração dos Estados Unidos foi criada a Companhia Siderúrgica Nacional) – veiculando um aviso revanchista e nacionalista, atraiu sobre os brasileiros uma fúria visceral absolutamente implacável, que atingiu em condições alarmantes, a população civil que se servia do transporte de cabotagem. Em nossa análise, não resta dúvida de que o ato daquele ministro apoiado por Getúlio Vargas e não menos pelo presidente dos Estados Unidos colocou o Brasil às vésperas, de uma investida da agressão militar alemã, porém, revestida por uma violência criminosa armada cometida pelo U-507, desproporcional, feita em nome de uma reação punitiva e conseqüentemente, de caráter muito sério contra a soberania de mar territorial brasileiro.

A responsabilidade ficava por conta dos EUA, que em guerra, podia jogar bombas?

O tenente-brigadeiro, Deoclécio Lima de Siqueira em seu livro “Fronteiras – A patrulha aérea e o adeus do arco e flecha”, não deixaria de justificar o ato cometido por aquele ministro brasileiro. Ele assim escreve: “Hoje, na calmaria distante daqueles tempos agitados, um analista menos avisado talvez possa admitir que o gesto do Ministro tenha sido precipitado, visto que o Brasil ainda se encontrava em estado de neutralidade. Mas, tal hipótese nem é justa, nem real. É preciso que se considerem três aspectos importantes:

Em primeiro lugar, nossa neutralidade já havia sido violada com a perda de várias dezenas de brasileiros mortos nos navios mercantes afundados nas costas dos E.U.A. Os primeiros traziam sinais de identificação à vista, de acordo com as convenções internacionais. Pode-se argumentar que isto foi feito em nome do bloqueio aos E.U.A. Este argumento, porém, esbarra no próprio conceito de neutralidade, pois não pode exigir respeito dos neutros se não os respeitamos, mesmo em contato com nossos inimigos no exercício de sua neutralidade.”
Em nossa análise, é contraproducente concordamos com o aviador brasileiro, pois assim estaríamos justificando em pactuar com a perversa dialética de ação e reação de atos de beligerância. É bem verdade que foram os nazi-fascistas que deram início a essa dialética e acima já desmentimos o que alegou o almirante Karl Doenitz, mas se as lideranças militares e políticas do Eixo desrespeitaram a neutralidade, o Brasil passaria a seguir os mesmos passos e passaria a não se comportar como um país neutro.

Voltemos ao segundo aspecto citado pelo pesquisador da história da aviação militar do Brasil, tenente-brigadeiro Deoclécio:
“Em segundo lugar, pode-se alegar que os aviões eram norte-americanos com instrutores daquela nação. Mas há que se considerar o fato que eles estavam incorporados ao Agrupamento de Aviões de Adaptação, uma organização criada na Força Aérea Brasileira, sob comando de oficial brasileiro, e as ordens para os ataques foram dadas pelos oficiais brasileiros no comando de tais aviões, os quais se encontravam em processo de transferência para a FAB. Não seria digno se abdicar dessa responsabilidade”.

Ora, aqui, deixemos que as próprias palavras do veterano da Campanha da Itália, o aviador, Nero Moura, falem por nós, e que os leitores assim tirem as suas próprias conclusões, uma vez que Nero Moura nos legou um depoimento esclarecedor, ou seja, de como se vivia debaixo de uma já comprometedora guerra informal: “(...)a entrada do Brasil na guerra só começou a se esboçar, realmente, quando se teve notícia dos primeiros torpedeamentos de navios brasileiros pelos alemães, em 1942. Só então compreendemos que teríamos que brigar mesmo. Já nessa época participávamos do patrulhamento no Nordeste, trabalhando com os americanos a pleno vapor na defesa da costa, com aviões cheios de bombas de profundidade, e, embora sem ordens expressas, andamos atacando submarinos que estavam nas nossas barbas, fora de águas territoriais, mas a menos de 200 milhas. Ainda não havíamos declarado guerra, mas as instruções das autoridades eram para que os pilotos, no patrulhamento das praias, ou, sobre o oceano, bombardeassem os submarinos, casos fossem atacados. Houve dois ou três ataques, não sei se tiveram sucesso, mas repercutiram na imprensa, através de inúmeras entrevistas do ministro Salgado Filho sobre o assunto. Quer dizer, já havia um consentimento tácito de que podíamos atacar. Mas, como os americanos voavam conosco, ás vezes a responsabilidade da ação ficava por conta deles, que estavam em guerra e podiam jogar as bombas”.

Um plano de ataque concentrado e impiedoso

Agora, vamos ao terceiro e último aspecto alegado pelo tenente-brigadeiro Deoclécio:

“Por fim, não podemos esquecer a diretriz do então chefe da área, o Brigadeiro Eduardo Gomes.Um submarino hostil, aquele que não se identificar, deve ser atacado. Há momentos em que um chefe não pode se omitir. Aquele era um deles e Eduardo Gomes não era de omissões. Depois do ataque ao Comandante Lira, e dos submarinos encontrados, não restava dúvida de que vivíamos às vésperas de uma investida mais séria contra nossas costas. Havia indícios evidentes de que a guerra submarina se orientava para o sul, na sua estratégia de buscar a surpresa. A todos estava bem presente o exemplo do ocorrido nas costas norte-americanas. Um chefe responsável não poderia se omitir ante a perspectiva de um novo ‘alegre massacre’, agora em nosso litoral. Esperar por ele para depois agir, em nome de uma neutralidade já desrespeitada seria uma imperdoável ingenuidade ou uma inadmissível falta de visão ou de coragem. Eduardo Gomes não conhecia essas falhas. Era um líder. Não havia outro caminho. Estava certo. Como também esteve certo nosso primeiro Ministro da Aeronáutica ao chamar a si a responsabilidade do ocorrido”.

Aqui, fazemos uma única e categórica ressalva: foi justamente em decorrência da ação de represália da FAB ao atacar os submarinos do Eixo, sem uma declaração formal de guerra que veio causar “um alegre massacre” na costa brasileira no mês de agosto de 1942, ou seja, só se começou a viver às vésperas de uma investida mais séria contra o litoral brasileiro, depois que os brasileiros exultaram com a ação revanchista praticada pelos aviões da FAB. E, diga-se de passagem, que o plano anterior da investida retaliatória do Eixo contra o Brasil seria muito pior do que a que foi praticada pelo U-507. Em outras palavras, quando o ministro da Aeronáutica anunciou com júbilo os ataques a submarinos do Eixo, o comandante da Força de Submarinos, Karl Doenitz, recebeu ordem de preparar um ataque concentrado de submarinos aos portos brasileiros.

Baseando-se então nesse estudo, o comandante-em-chefe da Marinha alemã, almirante Raeder, propôs a Hitler o envio ao Brasil de um grupo de dois submarinos do tipo IX-C, grandes, e oito do tipo VII-C, de tonelagem média, acompanhado pelo submarino-tanque U-460, para atacar simultaneamente entre 3 e 8 de agosto todos os navios que estivessem nos portos de Santos, Rio de Janeiro, Bahia e Recife e posteriormente minar as suas entradas.

E revela o já citado Jurgen Rohwer – ex-submarinista alemão - que Hitler teria concordado, mas pediu para tornar claras as conseqüências políticas advindas da represália, consultando o ministro das Relações Exteriores. Mas palestrou Jurgen Rohwer que quando o ministro Ribbentrop “levantou sérios escrúpulos porque este ataque traria não só o Brasil – que já era considerado como participante da guerra, como os EUA antes de Pearl Harbor – mas também a Argentina e o Chile para o lado dos Aliados, Hitler cancelou seu consentimento e ordenou que os submarinos, que já estavam a caminho, fossem enviados para outras áreas de operação. Esta ordem foi enviada em 29 de junho e os nove submarinos no mar alteraram seus rumos para zonas de operação nas costas de Freetown, Trinidad e Caribe”.

Porque Doenitz lamentaria e consideraria um erro político o ataque do U-507?

Mas o que aconteceu para que um daqueles nove submarinos viesse posteriormente ser deslocado para atacar a marinha mercante de cabotagem brasileira? O especialista no estudo das ações dos submarinos alemães na Segunda Guerra Mundial, Jurgen Rohwer, em parte nos fornece a resposta ao ter dito em 1982 para uma platéia de militares brasileiros, que o Comando da Força de Submarinos alemão assim tomou “uma péssima decisão, quando em 7 de agosto o U-507 recebeu por rádio a mensagem para usar ‘manobras livres’ ao longo da costa do Brasil. E acrescenta: “Não há evidência da real intenção que havia por trás desta ordem, porque suas prováveis conseqüências estariam em direta contradição com a da contra-ordem anterior de Hitler. Deve ter sido um erro tolo, causado por um desejo anterior de retaliação pela participação das forças brasileiras na guerra anti-submarino”.

Em verdade, devemos deixar bem claro, que o tal erro tolo partiu nada menos da ordem proferida por Doenitz, como então podemos observar através dos próprios registros daquele almirante alemão. Revela o mesmo em suas memórias: “Sem considerar a opinião da Argentina, o Ministro do Exterior negou permissão para qualquer operação ao largo das costas daquele País, mas não fez objeção à continuação de nossas atividades ao largo do Brasil, que haviam sido permitidas em maio e que estavam em progresso desde então. Decidi, portanto mandar, em associação com as operações planejadas contra o tráfego de navios Norte-Sul ao largo de Freetow, mais um U-boot para a costa brasileira. Do outro lado do estreito entre a África e a América do Sul, o U-507(Tenente-Comandante Schacht) estava operando. Ali fora das águas territoriais, ele afundou cinco navios brasileiros. Nisto ele agia de acordo com as instruções expedidas, com a cooperação do Ministro do Exterior, pelo Quartel-General das Forças Armadas”.

Ora, o almirante Doenitz mais uma vez falseia os verdadeiros fatos, porque ele sabia de antemão que os navios brasileiros previamente escolhidos para serem afundados por Schacht, não se encontrariam navegando ao “largo do Brasil”, zona aonde o seu ministro do Exterior, obviamente permitiria que se efetuassem as operações de guerra submarina. Portanto, analisando o que Doenitz escreveu, é de se notar que foi de sua inteira e única responsabilidade o ato de ordenar o deslocamento do U-507 para operar em meio da navegação doméstica brasileira, que se entabulava a menos do que oito milhas de distância da costa. Em suma, a decisão de atacar navios repletos de passageiros foi um erro tolo advindo de Doenitz, “causado por um desejo anterior de retaliação”. E não duvidamos que os afundamentos de agosto de 1942, foi um bálsamo para o ego do chefe do Comando da Força de Submarinos, porque não era feitio daquele militar alemão sofrer agressões sem revidá-las ainda mais violentamente, principalmente pelo fato de que aviões de patrulha da FAB, recentemente fornecidos pelos EUA - tendo a bordo instrutores norte-americanos - deliberadamente procuraram atacar os submarinos do Eixo que se encontravam posicionados ao “largo do Brasil”.

Repetimos, no dia 22 de maio de 1942, um avião da FAB, sob o comando do aviador Parreiras Horta, decolou da Base de Natal, especialmente com a missão de “localizar e atacar submarino hostil” que havia agredido o mercante armado Comandante Lira, navio que sem autorização e de forma muito suspeita, encontrava-se navegando ao largo, ou melhor, fora das águas territoriais brasileiras e se o governo, a imprensa, o povo, brasileiros, e até Roosevelt exultaram com o revide perpretado pela FAB, os nazi-fascistas se inflamaram, especialmente o almirante Karl Doenitz.

“Assim agindo, com destemor, espírito militar e evidenciando admirável capacidade profissional o capitão Parreiras Horta tornou-se digno de louvor e credor de admiração nossa e do país que teve, na ação por ele brilhantemente praticada, a primeira demonstração prática, no atual momento, do nosso patriotismo e desvelo na defesa da nossa integridade” – são estas as palavras do ministro da Aeronáutica Salgado Filho, as quais evidenciam o estado de beligerância não declarada em que o Brasil já se encontrava e que uma declaração de guerra formal por parte do governo varguista estava já em gestação, aguardando apenas o momento mais apropriado para que viesse eclodir. E assim se deu com o ataque terrorista desfechado pelo U-507.

Deixando de lado os equívocos praticados pelos brasileiros, voltemos aos cometidos pelos alamães: o historiador Vágner Camilo Alves, autor do livro “O Brasil e a Segunda Guerra Mundial – História de um envolvimento forçado”, vem comentar o fato de que é estranho que o almirante Doenitz, em suas memórias, “lamente e considere um erro político os ataques submarinos alemães de agosto de 1942, possíveis após o levantamento das restrições a ataques nas costas brasileiras feito pelo governo alemão, e que redundou na declaração de guerra do Brasil.No curto espaço de um único parágrafo, ele não apresenta qualquer argumento que possa referendar sua opinião de que levar o Brasil a declarar oficialmente a guerra foi ‘indubitavelmente um erro’. Para isto, o almirante teria de mostrar que o aumento da participação brasileira no esforço de guerra aliado mais do que compensou o incremento na tonelagem naval aliada afundada pelos submarinos do Eixo na região, e o desvio de recursos técnicos e militares dos Estados Unidos, para área e tarefa completamente subsidiária vis-à-vis a guerra total que se travava. Presumo que não foi o caso, com base nos fatos e argumentos apresentados aqui”.
Agosto se tornou realmente um mês emblemático?

Por causa dos massacres causados pelo U-507, segundo alguns autores brasileiros, até os tempos de hoje, o mês de agosto tem sido aziago na história do Brasil. Mas seja como for, naquele mês de agosto de 1942 os dias foram muito dolorosos. As repercussões da agressão foram dramáticas. Até o mês anterior excetuando a agressão ao mercante Comandante Lira por um submarino italiano, os ataques aos navios nacionais eram feitos longe dos olhos do sentimental povo brasileiro. Mas agora, porém, as conseqüências da animosidade recíproca se fizeram bem perto. Os cadáveres que deram em terra - alguns irreconhecíveis - depois de fotografados (para servir posteriormente como material de propaganda em um impresso produzido em 1943, pelo governo, sob o título: “Agressão - Documentário dos fatos que levaram o Brasil à guerra”), foram enterrados em valas rasas, abertas na restinga das vastas e desertas praias nordestinas. O ápice então das ameaças fora atingido. O próprio Mussolini, o fundador do fascismo na Itália e primeiro-ministro e ditador do país entre 1922 e 1943, havia declarado que chegaria o dia em que o Brasil pagaria caro pela ruptura. Cabe lembrar que a decisão de rompimento do Brasil e de mais 21 países foi tomada em 28 de janeiro de 1942 na Conferência Pan Americana no Rio de Janeiro, sob a influência explícita do chanceler Oswaldo Aranha.

A posição de Mussolini já tinha sido muito clara diante do eventual rompimento coletivo dos Estados americanos, pois se isso ocorresse, como de fato estava programado para ocorrer, “seria o caso de simplesmente declarar-lhes guerra; assim, imporemos aos Estados Unidos à obrigação de defender uma vasta frente: os latino-americanos querem uma guerra branca, mas terão uma vermelha” - disse o Duce (termo italiano para “o líder”), então quase feliz com essa perspectiva, a qual se concretizou em relação ao Brasil, quando Doenitz ordenou o ataque do U-507 contra a Marinha de cabotagem brasileira. Contudo, mal sabia o líder fascista, que em 1944, mais de vinte e cinco mil soldados oriundos, de todos os estados brasileiros (os quais, diga-se de passagem, tiveram suas bandeiras rasgadas pelo governo varguista no advento do ambíguo Estado Novo), desembarcariam em solo italiano para lutar ao lado das forças aliadas para libertar a Europa dos regimes ditatoriais nazi-fascistas; muito embora, faz-se convenientemente lembrar, que o Brasil também estava sob um regime ditatorial. Mas seja como for, com a ajuda dos pracinhas brasileiros no teatro da guerra na Itália, Benito Mussolini, uma vez foragido e uma vez capturado, teria seu fim decretado em 28 de abril de 1945 pelos partigiani (resistência armada), sendo executado sumariamente com sua amante, Clara Petacci, em Dongo, Itália.

Mussolini foi aliado de Hitler de 1938 a 1943, e ajudou a mergulhar a Europa na Segunda Guerra Mundial. No exercício despótico do cargo de primeiro-ministro, Mussolini reunificou a Itália, implantou reformas sociais e restaurou pela força a ordem perturbada por greves e distúrbios. Perdeu-se, no entanto, pela ambição de construir um império por meio da guerra de conquista.

O malfadado Sétimo Grupo de Artilharia de Dorso

O escritor Frank D. McCann em seu livro “Aliança Brasil-Estados Unidos 1937-45”, revela que o próprio Hitler teria, em transmissão radiofônica, em junho de 1942, alertado o governo brasileiro que o país seria alvo de uma blitz submarina. Portanto, como se pode observar até aqui, os navios mercantes brasileiros de navegação doméstica passaram a trabalhar em um ambiente de pré-guerra e essa expectativa já estava bem evidenciada nas ordens que então receberam todos os comandantes, de navegarem mais próximos da costa e que durante a noite, as luzes internas de seus barcos deveriam ficar apagadas, porém os faróis de navegação deveriam ficar acesos. E ainda, segundo as normas expedidas pelo governo brasileiro, os navios de cabotagem (que como medida de segurança já traziam as vigias pintadas de preto) deveriam tomar precauções quando passassem a navegar de Maceió em direção mais para o norte; ordens, aliás, comuns em todas as viagens feitas pelos mercantes naquele tenso período de hostilidades recíprocas. Ora, faltou pouco para que os navios mercantes das linhas de cabotagem viessem a navegar como se pertencessem a uma nação não neutra. Porém, pior do que isso foi o fato de que dos cinco navios torpedeados pelo U-507, dois foram usados ao nosso ver, indevidamente, ou seja, no transporte de soldados e material de guerra para guarnecer Recife. Ora, sobre os preparativos de conduzir efetivos militares a fim de aumentar a defesa de um ponto estratégico do litoral nordestino, certamente estava bem informado o Comando Naval alemão por conta da ativa espionagem da Quinta Coluna nazista. De modo, que, perdeu-se com o Baependi e com o Itagiba todo o material do Sétimo Grupo de Artilharia de Dorso (criado pelo decreto-lei 4.342 de 26 de maio de 1942), bem como grande parte de seu pessoal (morreram 132 soldados), além do material destinado a Recife e ao destacamento de Fernando de Noronha. Ora, embarcando tropas em navios mercantes das linhas de cabotagem, o Ministério da Guerra assumiu graves responsabilidades.

O próprio general Dutra - então Ministro da Guerra - revelou em um de seus muitos depoimentos, o seguinte: “(...) A primeira conseqüência desastrosa da campanha submarina foi de perdermos a liberdade de navegação, numa época em que ainda estávamos equipando e reforçando as guarnições do Nordeste, forçando-nos, assim, a apelar para a rota do Rio São Francisco (...)”.

Em verdade, desastrosa foi a ordem tomada pelo general Dutra em fazer transportar em agosto de 1942 nos navios de cabotagem, efetivos do Exército naquele período de beligerância não declarada. Aquele general, como as demais autoridades brasileiras bem sabiam que naquele momento, a situação era imperiosamente perigosa, o que se encontra evidenciado quando se fez o recente transporte de soldados para o guarnecer o longínquo arquipélago de Fernando de Noronha, porquanto o navio de transporte recebeu a escolta do cruzador Rio Grande do Sul. Embora o deslocamento do Sétimo Grupo de Artilharia de Dorso fosse realizado em águas costeiras relativamente mais “seguras”, seria razoavelmente prudente e responsável, que o assim fizesse em navios escoltados e em segredo e não como foi feito às claras e em navios de linha de cabotagem. Resultado: aquele efetivo militar veio sucumbir nos ataques desfechados ao Baependi e ao Itagiba, fazendo-se vítimas, indistintamente, a militares e civis.

Na prisão de Spandau: dez anos confinado

Um ano depois do Brasil se alinhar definitivamente em favor dos interesses políticos e estratégicos dos EUA, principalmente sob a batuta do chanceler Oswaldo Aranha - um democrata que não estava isento de ambigüidade e de oportunismo - um Catalina norte-americano avistou o U-507 bem ao largo, ao noroeste da costa de Natal e o atacou com cargas de profundidade, levando a morte todos os seus 54 ocupantes. Esse fato ocorreu em 13 de janeiro de 1943. Em 1944, Harro Schacht, que havia sido condecorado em 9 de janeiro de 1943 com a cruz de cavaleiro da cruz de ferro - a ritterkreuz des eisernen kreuzes - receberia postumamente a patente de capitão-de-fragata.

Finalizando, o almirante Karl Doenitz era um dos poucos oficiais nacional-socialistas convictos da Marinha alemã, ele em muitas vezes pregou política para seus marinheiros e para o povo alemão, louvando “o líder enviado do céu” na pessoa de Hitler. O almirante Karl Doenitz, não somente jamais discordou da política do Partido Nazista em qualquer sentido, mas adotou seus usos básicos e falou sobre os judeus no mesmo tom usado pelos gauleiters (chefes distritais). Ele em verdade, foi completamente devotado a Hitler. “Somos uns vermes, comparados a ele”, assim disse Doenitz em 1943 a uma multidão de fanáticos em Berlim, acrescentando que Hitler previa tudo e não cometia julgamentos incorretos. Foi só no fim da guerra que Doenitz na frente do governo do III Reich, ordenou que fossem retiradas as fotografias de Hitler dos lugares públicos, uma semana depois da rendição. A Alemanha então se encontrava em completa ruína e num caos infernal.

Karl Doenitz foi levado ao Tribunal de Nuremberg, sob a acusação pelos mais graves crimes que poderiam se imputados a um marinheiro, não somente por conspirar para promover guerra agressiva e sua efetivação, mas também por crime de guerra, o crime de guerra de qualquer oficial naval: não fez nenhum esforço para salvar os sobreviventes de navios torpedeados. Além do mais, Doenitz levou à morte, de acordo com a acusação, centenas de não-combatentes, inclusive mulheres e crianças, passageiros de navios mercantes. Mas o Tribunal de Nuremberg acabou por considerá-lo culpado de haver cometido crimes contra a paz, mas não de haver conspirado para cometê-los. Foi também considerado culpado de crimes de guerra; seu apelo de tu quoque (“você é outro”) para a conduta de guerra submarina foi aceito, mas o Tribunal de Nuremberg disse que ele estava envolvido na Ordem de Comando e que permitira que fosse a mesma posta em prática depois que se tornara Comandante-em-Chefe da Marinha em 1944. Mas o testemunho que, indubitavelmente, salvou a vida de Doenitz partiu do almirante norte-americano Nimitz e do Almirantado Inglês. E Doenitz foi condenado a dez anos de prisão na fortaleza de Spandau.

Mesmo depois dos julgamentos de Nuremberg, Doenitz continuou com sua obstinada defesa de Adolf Hitler. E ele ainda viveu o bastante para escrever suas equivocadas memórias, as quais nos servimos para apontá-lo como sendo o responsável direto pela matança de civis brasileiros. Em 1957, em Wilhelmshaven, por ocasião de uma solenidade em memória da guerra naval, lá estava ele, Doenitz com a mão por baixo do braço do seu ex-comandante-em-chefe da Marinha alemã - almirante Raeder - visivelmente ajudando-o a conservar-se de pé. Ambos estavam livres e com todas as lembranças do que tinham e do que não tinham feito ao lado do megalomaníaco Hitler, o qual queria impor ao mundo o Milênio do III Reich. Mas o III Reich, que durou 12 anos e que foi construído com base na violência armada e que governou debaixo da violência institucional, provocou obviamente uma resposta violenta por parte de outras nações imperialistas, que finalmente o destruiu. As metas da política externa que foram esboçadas no Meín Kampf havia transformado o mundo em um inferno e em seu rastro, uma outra guerra surgiu: a Guerra Fria, justamente entre dois países, que se aliaram oportunamente para derrotar o nazi-fascismo.

Submarinos norte-americanos secretamente afundaram navios brasileiros?

Finalmente, cabe dizer que o estudo acima também tem o objetivo de esclarecer uma absurda dúvida histórica que vem de boatos já surgidos ainda em tempos de guerra e que já transformado em um mito, obviamente sobrevive até hoje, ou seja, a de que responsabilidade pelos ataques aos navios nacionais é imputada aos submarinos norte- americanos. Na década de 60 do século passado, alguns historiadores brasileiros chegaram a afirmar que os torpedeamentos de agosto de 1942 foram feitos pelos militares de Roosevelt, sustentando-se no fato de que os Estados Unidos pretendia obrigar Getúlio Vargas a declarar guerra ao Eixo. O já citado autor, Vágner Camilo Alves comenta que se Karl Doenitz, “a maior liderança alemã no que diz respeito à guerra submarina no Atlântico confessa, sem maiores problemas, a responsabilidade alemã pela destruição dos navios brasileiros penso já ser momento de sepultar, definitivamente, qualquer hipótese esdrúxula atribuindo à ação militar norte-americana a responsabilidade pelas perdas navais brasileiras”.


A legalidade da guerra submarina

Durante os processos movidos em Nuremberg, chegou-se as seguintes conclusões, quanto à legalidade da guerra submarina:


a) ser lícita essa guerra, sem restrições;

b) os navios mercantes armados são assimilados aos navios de guerra a que é permitida qualquer ação contra eles;

c) que os navios mercantes, armados ou não, nas zonas declaradas de “guerra” podem ser afundados sem prévio aviso;

d) que os navios neutros não podem ser atacados em qualquer parte do mundo, desde que não se recusem às visitas ou pratiquem atos de assistência hostil.


“A história, dizem freqüentemente, não poderia contentar-se em ser uma narração; ela também explica, ou melhor, deve explicar”. (Paul Marie Veyne)

Elísio Gomes Filho é historiador


Bibliografia consultada:

Agressão - Documentário dos fatos que levaram o Brasil à guerra. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1943.

Alves, Vágner Camilo. O Brasil e a Segunda Guerra Mundial – História de um envolvimento forçado. Rio de Janeiro, Edições Loyola, 2002.

Arquivo Histórico do Ministério do Exército - Edifício Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Coletânea de documentos do Inquérito Policial Militar sobre os torpedeamentos de agosto de 1942.

Davidson, Eugene. A Alemanha no banco dos réus - tomo II. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1970.

Duarte, Paulo de Q. Dias de guerra no Atlântico Sul. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército - Editora, 1968.

Gama, Arthur Oscar Saldanha. A Marinha do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro, CAPEMI Editora, 1982.

Hilton, Stanley. Oswaldo Aranha - Uma Biografia. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1994.

Huck, Hermes Marcelo. Da guerra justa á guerra econômica. São Paulo, Editora Saraiva, 1996.

Kershaw, Ian. Hitler um perfil do poder. (Edição em língua portuguesa). Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1993.

Leite, Mauro Renaut e Júnior, Novelli. Marechal Eurico Gaspar Dutra. O dever da verdade. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira,1983.

Moura, Nero. Um vôo na história. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas Editora, 1996.

O Brasil e a Segunda Guerra Mundial - volume II. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Ministério das Relações Exteriores, 1944.

Mason, David. Submarinos alemães - a arma oculta - número 8. Rio de Janeiro, Editora Renes, 1975.

Revista Marítima Brasileira - Ano LXX1 - out.-dezembro de 1951. Rio de Janeiro, Imprensa Naval, Ministério da Marinha, 1952.

Rhodes, Richard. Mestres da Morte. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 2003.

Rohwer, Jurgen. Operações navais da Alemanha no litoral do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, in Navigator - Subsídios para a História Marítima do Brasil - número 18. Rio de Janeiro, SDGM, Ministério da Marinha, 1982.

Seintenfus, Ricardo. O Brasil vai a guerra. São Paulo, Editora Manole, 2003.

Pedrosa, J. F. Maya. O enigma dos submarinos - Nordeste do Brasil, 1942. Maceió-São Paulo, Edições Catavento, 2001.

Tota, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor – A americanização do Brasil na época da Segunda Guerra. São Paulo, Editora Schwarcz, 2000.


Elísio Gomes Filho é mergulhador, escritor e historiador, sendo autor de livros sobre tragédias marítimas e foi fundador do Museu Histórico Marítimo do Cabo Frio (1987) e do Museu Histórico Marítimo de Armação dos Búzios (2001), cujo acervo foi doado ao Museu Oceanográfico de Arraial do Cabo. Entre suas pesquisas, encontra-se aquela que veio elucidar o caso do desaparecimento do barco-de-pesca “Changri-lá”, sobre o qual descobriu que a pequena embarcação brasileira foi atacada pelo U-199 em julho de 1943. Hoje, os nomes dos dez pescadores do “Changri-lá” encontram-se, imortalizados, no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial no Aterro do Flamengo. O especialista em histórias do mar, é responsável pelo site: www.nomar.com.br.


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Sailing event spotlights Ancient Roman wrecks

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ANSA.it
October 28, 2005



Archaeologists in this western Sicilian city are hoping that a modern sailing event could help them unlock some of the underwater secrets of the island's maritime past.

The highly publicized pre-America's Cup Louis Vuitton series, the final chapters of which were staged off the coast here prior to the winter break, helped spotlight an area that is home to numerous wrecks of archaeological value.

Dozens of ancient vessels are still lying unsalvaged on the seabed, in part, due to a lack of funds .Among the wrecks are a group that sank over 2,200 years ago during the Punic Wars, in a landmark battle between the Romans and the Carthaginians that shaped history.

The wild weather sunk 70 Carthaginian vessels and 30 Roman ones and despite some archaeological plundering in the 1970s, numerous finds are still waiting to be rescued from their resting place.

Around 60 amphorae lie scattered on the seabed, at least one of which still marked with its 2,000-year-old label. The wine was made by the Papia family from Campania, and was exported throughout the Mediterranean.

As well as the Roman ship remains and the amphorae, there are also invaluable discoveries to be made in wrecks from other periods.

"One of the most momentous finds we have made so far is a pewter flask, which still contained wine that was 600 years old," said Sebastiano Tusa, a leading Italian archaeologist and Sicily's Sea Superintendent.

"This is one of the most ancient existing sample of wine still in liquid form." Experts believe the seabed in the area is littered with such important items but excavation projects have been continually hampered by a lack of cash.

Local authorities are now hoping that the recent sailing event will generate enough tourism and investments to help draw attention to a new archaeological initiative that could turn the situation around.

"We're hoping to be able to tap the enormous popularity created by the Louis Vuitton Cup in the area, in part to promote an enormous museum complex being built," said Trapani Cultural Heritage Superintendent Giuseppe Gini.

The museum is being developed inside a renovated building on the nearby Aegadian island of Favignana.

It will provide a home for finds that have already been rescued, as well as items that experts hope to bring to the surface over coming years.

Although the complex won't be finished until 2008, it forms part of a broader drive to make the most of the area's historical maritime heritage, including a new period of salvage work and real-time film transmissions from one of the ships.

"The museum will eventually host a room with screens entirely dedicated to the wonders of the seabed," said Tusa.

"Visitors will be able to admire the archaeological remains of a Roman relic dating back to the 1st century AD, which sank near Cala Minnula on Levanza," another one of the Aegadian islands.

A number of cameras will be set up around the ship, which sank to 27 meters' depth with a cargo of the popular Roman fish paste, garum, on board. Images from the site will then be broadcast live to the control centre.

The cameras will start transmitting in November. Their images will initially go a small existing museum on Favignana, and later to an expanded, modernized complex that is being developed.


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Saturday, October 29, 2005

 

River reveals sunken steamboat

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Argus Leader
By Nestor Ramos
October 28, 2005


VERMILLION - On Oct. 27, 1870, the North Alabama steamed up the Missouri River, burning through a cord of wood every hour.

As it traveled, riding high on the river, paddle wheels churning, it snagged on something just beneath the water. The hold filled with sand. The crew couldn't save their ship, so they salvaged what they could.

Now, the remains of a ship that archaeologists think is the North Alabama sit exposed, uncovered for the first time in 75 years.

"All indications seem to be that this is the North Alabama that sunk on this date in 1870," Larry Bradley, an archaeologist at the University of South Dakota, said Thursday, standing on a sandbar in the middle of the Missouri.

Last year, Bradley said, he would have been under six feet of water.The river's low water level, sand migration and the ongoing drought all played a part in exposing the ship's hull.

To Larry Murphy, the boat's bleached, deteriorated remains are a fascinating reminder of the lifeblood of a lost era, when the country's rivers were as vital to commerce as the highways and the air are today.

"People growing up now see the river in a very different way, rather than fundamental to their existence," said Murphy, director of the National Park Service's Submerged Resources Center in Santa Fe, N.M.

The park service and the university have been working for two weeks to document the precise location of the boat's remains, each morning ferrying their gear to a sandbar in the stretch of river southwest of Vermillion where the boat snagged.

The location of the wreckage, as well as the details of its construction, tell the small crews that this is indeed the North Alabama, a riverboat designed to move large amounts of cargo.

Using global positioning locators and electric pulse imaging, the archaeologists can document and map the exact location, to within 1 centimeter, of every piece of eroding wood and rusted metal.

"All we can see now is just a small percentage of the boat," Bradley said. Some of the remains now sit under the sand, including another rudder - the North Alabama had four.

The ship's skeleton reaches out of the water, then winds back under, the bow still pressing, just beneath the water, against the heavy stump that probably brought it under 135 years ago.

The hull is split down the middle, and much of what made the boat a boat has been lost to time and scavengers and the relentless river.

Murphy has seen the Titanic, the monuments at Pearl Harbor and Spanish galleons with the parks service.

For him, the planks and boards of the boat that once traversed North America's most dangerous river to navigate are a treasure. He pointed upriver at the stumps and logs jutting out of the water, hazards that would have been impossible to see when the river was higher.

Piecing together history
"Every time there's a chance to look at one, we are able to learn a little bit more and to piece together a history that's going on 150 years old," he said.

Centuries from now, men like Murphy might be picking over the fascinating skeleton of a rusted jet.

Because the boat's remains are well-preserved, the crew has been able to document a substantial amount, Murphy said.

"The only real threat now is that people are removing things," Murphy said. That danger is much more significant than the river, which erodes the oak slowly.

Even so, Murphy hopes people will come to visit the wreckage.

"This is a part of our common history," he said.

A 260-ton steamboat built in Pittsburgh in the 1860s, the North Alabama was captained the day it was lost by Grant Marsh, who had found his fame four years earlier, when he transported wounded soldiers down from the Little Big Horn River, bringing with them the news of Gen. George Custer's defeat.

Not built to last
Riverboats were built light and fast to save money, Murphy said, and they typically had a life span of only five or six years. Their architecture was unique the world over.

Owners could make back their investment in one trip, provided the ship carried enough cargo, and every trip thereafter was pure profit.

So when the North Alabama hit the snag, it wasn't a complete disaster. Nobody drowned, and many of the usable parts of the boat - the paddle wheels, in particular - were quickly salvaged.

In the 1930s, Bradley said, the boat surfaced briefly.

"All the local bars emptied out," he said. People flocked to pick over the wreckage. The rumor was that "there's a hold full of whiskey, and it's well-aged," Bradley said.

Anything is possible, but it's unlikely that anyone scored anything of value.

Until last year, that was the last time anyone saw the North Alabama above the water.

When the boat surfaced in 1890, Murphy said, the town came out to gawk.

"It was quite spectacular," he said. "The local news at the time said, 'The river has given up one that it had once taken.' "Now, a century later, it has given it up again.


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Tsunami reveals ancient temple sites

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BBC
By Paddy Maguire
October 27, 2005


Layers of sea shells and debris point
to previous tsunami strikes.

Archaeologists say they have discovered the site of an ancient temple in the southern Indian state of Tamil Nadu.

It is the latest in a series of archaeological discoveries in the area struck by December's tsunami, which desilted large areas of the coastline.

The brick temple dates back more than 2,000 years to the late Tamil Sangam period and was discovered on the beachfront near Saluvankuppam, just north of a famous World Heritage site at Mahabalipuram.

The discovery lends more weight to growing evidence that a huge tsunami hit the east coast of India during this period, obliterating large habitations along the coastline.

Two periods
The Archaeological Survey of India (ASI) made the discovery while looking for a 9th Century Pallava temple.

"The tsunami exposed inscriptions on a huge rock that had previously been protected as a site of importance," said T Satyamurthy of the ASI.

"These inscriptions dated back to 935 AD and said that Krishna the Third, from the Rashtrakuda Dynasty in Karnataka, had given gold to a temple to pay for keeping an eternal flame alight.

"This led us to dig further. Near the surface we found coins, pottery, stucco figurines and bronze lamps and so we knew there must be something more. Soon we discovered the remains of the 9th century Pallava temple."

As they continued to excavate they came across the earlier Sangam temple. The distinctive shift from courses of brickwork to large granite slabs indicates the different periods.

"The Pallavas just built on the brick foundations left behind after the Sangam temple was levelled. The two periods are there, clear to see," said Dr Satyamurthy.


Shift from brickwork to granite
slabs indicates different periods.

Tsunami deposits
But it is the question of how these two temples were destroyed rather than their age that has fired the interest of the teams involved.

Layers of sea shells and debris in the sand show that tsunami activity had twice levelled the temple complex.

"The Pallava structure was destroyed by waves some time in the 13th Century and evidence suggests that beneath it, we are looking at the remains of a brick temple that was destroyed by a tsunami approximately 2,200 years ago," said Badrinarayanan S, a retired director of the Geological Survey of India.

Another archaeologist from the ASI, G Thirumoorthy, said: "We can see these tsunami deposits in Orissa, Andhra Pradesh and Tamil Nadu. We've found that devastation happened along about 1,200km (750 miles) of India's eastern coastline.

"The discovery of this Sangam temple will lead us to other geological sites along the coast and teach us more about the pre-Pallavan period."

Since the tsunami on 26 December, marine archaeologists have also discovered evidence of large structures on the seabed up to 1km out to sea.

They think the structures may be part of a former, legendary city of Mahabalipuram.

Myths state the city was destroyed by a flood sent by gods envious of its beauty.


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Os Historiadores do Mar

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Do Fundo do Mar
By Pedro Caleja
October 29, 2005


Elísio Gomes Filho

Recebi um agradável e-mail do historiador Elísio Gomes Filho, responsável por um excelente site brasileiro, o qual desconhecia até à data.

Vale a pena fazer uma visita ao site de "Os Historiadores do Mar"

Aqui fica uma apresentação do mesmo, nas palavras do seu responsável.


Missão:
O site dos Historiadores do Mar vem contribuir para a produção de conhecimentos, tendo como vetores a educação, a formação e experiências no âmbito cultural, político-social, científico e tecnológico, visando ao desenvolvimento de uma consciência coletiva voltada principalmente para a preservação da história marítima e naval e do ambiente marinho.

Os Historiadores do mar é um site destinado a expandir a base de conhecimento sobre os recursos culturais submersos, a fim de familiarizar o público interessado com os contextos históricos em que ocorreram os naufrágios.

As pessoas com os mesmos objetivos são incentivadas a participar em “nossos mergulhos” assim como para ajudar a expandir a nossa base de conhecimentos, não só sobre os naufrágios da costa brasileira, mas também do mundo.


Objetivos:
Manter reunida a disposição do público, informações sobre a história trágico-marítima; arqueologia subaquática; oceanografia biológica; meteorologia; poluição ambiental marinha e a antropologia marítima. Promover estudos e intercâmbios com universidades, instituições governamentais científicas e culturais brasileiras e estrangeiras e com ONGs;Patrocinar o amplo conhecimento sobre a região marítima brasileira e internacional;Estabelecer intercâmbios educacionais, culturais e científicos da região Sudeste com as demais regiões do país e com os diversos países do mundo.


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