Monday, November 10, 2008

 

O tesouro mais bem guardado do mundo

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Público
By Ana Machad0
November 10, 2008


Durante 32 dias, Francisco Alves, arqueólogo, especialista em arqueologia
náutica e submarina, esteve na Sperrgebiet, a "terra proibida", a zona de
exploração diamantífera da costa atlântica de Oranjemund, na Namíbia. O
arqueólogo andou a recolher aquela que classifica como " a maior descoberta
arqueológica da África subsaariana". Uma nau portuguesa, carregada de moedas
de ouro, lingotes de cobre, presas de marfim. Ficou ali durante 500 anos, no
areal da Namíbia, destroçada após um naufrágio. Para agora se revelar. Por
Ana Machado

Pode não ser a nau que transportava Bartolomeu Dias, que naufragou em 1500.
Mas decerto é uma nau portuguesa, da rota das Índias, ou melhor, o que resta
dela após um violento naufrágio. Seguia para oriente numa data não muito
distante de 1500. Mas posterior.

Fustigada pelos musculados braços do monstro Adamastor, senhor das correntes
do Cabo, a embarcação foi esventrada pelas ondas e empurrada para a costa da
Namíbia, deixando no caminho um rasto de carga, de ossos e destroços de
navio. Tudo morreu na praia. E por lá ficou ao longo de cinco séculos.

A descoberta desta embarcação naufragada há 500 anos está a fascinar a
arqueologia náutica mundial. Em Abril passado um funcionário da Namdeb, o
consórcio do Governo da Namíbia com a multinacional de exploração
diamantífera DeBeers - que faz a exploração da região -, encontrou uma pedra
estranha enquanto extraía as preciosas pedras brilhantes das areias da
Sperrgebiet, "terra proibida". Um canhão empedernido foi a primeira peça a
revelar-se. Depois vieram mais, muitas mais.

Duas mil moedas cunhadas pelas coroas espanhola e portuguesa, 20 toneladas
de lingotes de cobre e estanho, semi-esféricos, mas também de outras formas,
algumas estranhas, cravados com o tridente dos banqueiros alemães Fugger,
que forneciam de metal a coroa Portuguesa. E ainda dezenas de presas de
marfim africano, instrumentos científicos, baixelas de estanho e restos de
candelabros, espadas, restos de ossos humanos (pelo menos uma costela e
parte de uma bacia) e até restos de chinelos em couro. Um espólio típico de
um navio que vai para o oriente, dizem os especialistas.

Isto para além de peças da estrutura do navio, de tamanho colossal, que
começaram a aparecer por todo o lado ao longo dos cerca de 600 metros
quadrados, na mina U60 da Sperrgebiet.

O local da escavação é um pedaço de terra roubado ao Atlântico, resguardado
do mar por uma parede artificial de areia com seis metros de altura. Um
carreiro de camiões encarregou-se de alimentar a muralha constantemente, ao
longo dos 32 dias de trabalhos. Só 1700 euros diários eram necessários para
esta operação, totalmente financiada pela NamDeeb. Para cá dessa parede, e
depois da água e areia aspirada (e cuidadosamente filtrada para revelar
diamantes), os achados quinhentistas foram expostos.

Numa primeira fase os trabalhos foram coordenados pelo arqueólogo
sul-africano Dieter Noli, especialista na área da Sperrgebiet. Mas era
necessária a participação de uma equipa que soubesse lidar com a raridade em
causa: uma nau quinhentista. Foi então que o nome de Francisco Alves surgiu.
A única nau quinhentista, da rota das Índias, descoberta e estudada até
hoje, a Nossa Senhora dos Mártires, em 1998, na barra do rio Tejo, foi um
trabalho da sua equipa, do Centro de Arqueologia Náutica e Subaquática, o
CNAS.

A equipa portuguesa

"É o achado mais importante encontrado da África subsariana, pelo menos dos
estudados por arqueólogos, exceptuando talvez a fragata de Santo António de
Tana, de final do século XVII, escavada em Mombaça no final dos anos 70,
estava a arqueologia náutica portuguesa a nascer. Não falo de pilhagens,
claro", defende Francisco Alves que reconhece o esforço do Governo da
Namíbia em resistir a "caçadores de tesouros" que assediaram as autoridades
na esperança de chegar ao achado.

Para além de Francisco Alves e Miguel Aleluia, do CNAS e de um grupo de
investigadores espanhóis indicados pelo Ministério da Cultura do país
vizinho e do Museu de Arqueologia Subaquática de Cartagena, a equipa era
ainda formada por um grupo de especialistas da Universidade de Texas A&M,
uma das melhores instituições de investigação do mundo em arqueologia
náutica, representada pela equipa do também português Filipe Vieira de
Castro. Este último também tinha participado, com Francisco Alves, nos
trabalhos da Nossa Senhora dos Martíres. Mas a participação desta equipa de
excelência, que se encarregaria agora da investigação ao pormenor e da
conservação dos achados, parece ser incerta.

"A única parte do projecto em que nós poderíamos adicionar algum
conhecimento era na conservação das concreções metálicas porque o nosso
laboratório aqui tem capacidade para radiografar e reconstruir objectos há
muito desaparecidos, mas cujos moldes ficaram preservados nas concreções,
juntamente com pólenes e traços ínfimos de exosqueletos de insectos. Mas
para isso era preciso que os governos, português e da Namíbia, nos deixassem
trazer as concreções para o Texas. E como os representantes de ambos os
países colocaram reticências a este respeito, nós não pensámos mais nisso",
adiantou ao P2 Filipe Castro.

Francisco Alves também afirma não saber nada sobre os planos para o futuro
da investigação: "Os trabalhos preliminares são muito importantes. Muitas
vezes precisamos de instrumentos de dentista. Mas tem de haver um trabalho
de equipa", diz Francisco Alves sobre uma autêntica investigação digna da
famosa série CSI. O que se passou na Sperrgebiet foi uma verdadeira
investigação forense que levou a que conseguisse fazer o levantamento de
tudo aquilo que era recuperável nos 600 metros quadrados de achados disperso
pela mina U60.

A primeira moeda de ouro

Mas a etapa seguinte não é menos importante: "Todos os pormenores surgem
agora na leitura destes vestígios delicadíssimos retirados do seu contexto.
A construção de uma embarcação tem vestígios arquitecturais, sinais
inscritos na madeira, nos quais a náutica portuguesa é muito rica", diz o
arqueólogo sobre o que agora se seguirá, uma espécie de montagem de um
puzzle muito incompleto.

Nos 32 dias passados na "terra proibida" Francisco Alves e Miguel Aleluia
conseguiram recuperar tudo o que era possível. "As surpresas eram diárias.
Temos mais de meia centena de peças estruturais do navio e foram todas
recuperadas. Tudo o que interessava e que se encontrou foi salvo dentro da
abordagem possível", diz Francisco Alves que, em quatro décadas de
arqueologia náutica encontrou, na Namíbia, a sua primeira moeda de ouro.
Mas o arqueólogo português está certo, contudo, que a rocha e a natureza
ficaram com muito mais. Uma das peças mais importantes da estrutura do
navio, o calcez, "uma peça colossal", com dois metros de comprimento, usado
para içar os panos do navio, e que estava descrita num manual de época mas
que nunca tinha sido vista, foi encontrada intacta a quatro quilómetros da
mina U60, onde decorreram os trabalhos.

Identificaram as peças e deixaram-nas num banho acuoso essencial à
conservação. Nada sairá da Namíbia, visto que a legislação do país protege
os achados encontrados em território nacional. Mas, para além das moedas de
ouro que terão sido guardadas num banco da Namíbia, tudo o resto está num
dos lugares mais seguros do mundo: "Toda a fronteira do Sperrgebit é um
'ScanEx' gigantesco, como o de controlo de bagagens nos aeroportos",
descreve Francisco Alves. Ninguém sai da zona de alta segurança da
exploração diamantífera sem ser virado do avesso. "Até as tampas das
esferográficas eram revistadas".

Por isso Francisco Alves acredita que a nau quinhentista da Rota das Índias
está a salvo. Apesar de pairar sobre este tesouro, sempre, o risco de
sucumbir ao feroz assédio do mercado internacional de antiguidades.

Sobre o valor do achado, Francisco Alves recusa-se a avançar com números:
"Recuso-me a avançar com valores. Seria inédito que algum arqueólogo
avaliasse um achado. Quanto é que vale o túmulo do Tutankamon? Isso é para
as lojas de antiguidades".

Mas são as moedas de ouro que falam mais alto. São elas que vão indicar,
pela data de cunhagem, a datação da embarcação: "Nos primeiros dias de Maio
foi encontrada uma moeda cuja cunhagem só existiu a partir de 1525. Mas só
nos podemos pronunciar quando forem todas classificadas. A cunhagem mais
recente indicará a data provável".

E é também nas cerca de duas mil moedas que se concentram as atenções em
relação a valores. As portuguesas, mais valiosas, uma vez que tinham um grau
de pureza de 999,2 por mil, representam apenas um terço da colecção. Mas
estes "portugueses" de século XVI, como se chamavam então a estas moedas,
estavam avaliados, há cerca de dez anos, conta Francisco Alves, em cerca de
50 mil euros. Cada moeda.


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www.dofundodomar.blogspot.com

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